Associação Comercial de Tiradentes e Região Área do Associado

Tem algo errado em Tiradentes. E a mudança começa aqui.

Em 1982, dois pesquisadores americanos publicaram um artigo que mudaria a forma como o mundo pensa sobre descuido e responsabilidade coletiva. James Q. Wilson, professor em Harvard, e George Kelling, um dos maiores especialistas em segurança urbana do século XX, partiram de uma observação aparentemente banal: bairros com sinais visíveis de abandono tendiam a concentrar mais problemas do que bairros cuidados. A conclusão, no entanto, era mais profunda do que parecia. Não se tratava de coincidência. Tratava-se de uma lógica que, uma vez compreendida, é impossível de ignorar.


Uma janela quebrada, quando não é consertada, manda uma mensagem. Diz que ninguém está de olho. E quando essa mensagem não é contrariada, ela se expande silenciosamente até se tornar o padrão do lugar. O descuido, perceberam Wilson e Kelling, não é apenas um sintoma. É também uma causa.


Tiradentes é patrimônio histórico nacional. Suas ruas de pedra, suas igrejas e sua atmosfera única atraem visitantes que poderiam estar em qualquer outro lugar do mundo e sustentam a economia de toda uma região. Esse não é um dado menor. É, acima de tudo, uma responsabilidade que precisa ser assumida todos os dias, por todos que aqui vivem, trabalham e constroem suas histórias.


É por isso que dói observar o que foi se instalando de forma lenta e progressiva: calçadas deterioradas, mato alto, lâmpadas queimadas, fachadas que comunicam abandono antes que qualquer palavra seja dita. O visitante percorre esse caminho antes de chegar até você. E o que ele vê no trajeto já é parte da experiência que vai recordar.


Essas são as nossas janelas quebradas.


O que torna esse problema difícil não é sua complexidade. É, sobretudo, sua invisibilidade para quem vive dentro dele. Quem passa todos os dias pelo mesmo trecho deixa de enxergar o que o visitante vê na primeira vez. E quem deixa de enxergar deixa, também, de agir. Não por má vontade, mas porque a desordem foi se normalizando tão devagar que ninguém percebeu o momento exato em que passou a fazer parte da paisagem.


Ao longo das ruas de Tiradentes convivem, lado a lado, fachadas cuidadas e outras cujo descuido já foi absorvido pela paisagem. Casas com flores na porta e terrenos que comunicam desistência. Esse contraste não passa despercebido pelo visitante. Pelo contrário, ele fragmenta a experiência do destino e enfraquece o que cada um, individualmente, tenta construir. O cuidado de um não apaga o descuido do outro, por mais que devesse.


A palavra pertencimento aparece com frequência quando se fala de Tiradentes. Ainda assim, ela tem sido usada quase sempre para criar fronteiras, como se quem mora aqui e quem trabalha aqui fossem grupos com interesses diferentes. Essa fronteira, porém, não existe na prática. Em Tiradentes, quem comercializa também mora. Quem mora também depende, direta ou indiretamente, do turismo que movimenta a cidade. A economia local não distingue endereços. O visitante, muito menos.


Para quem chega de fora, Tiradentes é uma experiência contínua. Ele não sabe, e nem precisa saber, de quem é a calçada irregular que percorreu ou o terreno abandonado que avistou pelo caminho. O que ele sente é a cidade como um todo. E o que a cidade comunica como um todo é o que fica na memória, o que ele vai contar para quem não esteve aqui e o que vai determinar se ele volta.


Pertencimento, portanto, não é sentimento. É comportamento. Não é amar Tiradentes em discurso. É agir por ela no cotidiano, reconhecendo que todos habitam e dependem do mesmo destino e que a responsabilidade pelo espaço compartilhado não tem endereço fixo.


Quando foi a última vez que você parou para olhar para a sua rua como se fosse a primeira vez que a via?


Não para julgar. Para enxergar. Porque é muito mais fácil identificar a janela quebrada do vizinho do que perceber que a nossa também precisa de atenção. E enquanto cada um espera que o outro comece, a cidade continua mandando a mesma mensagem para quem chega: ninguém está de olho.


A mudança não começa em reuniões, projetos ou discursos. Começa quando alguém colhe o papel no chão sem perguntar de quem é a culpa. Quando a lâmpada queimada na esquina vira um problema seu antes de virar reclamação de outro. Quando o entorno passa a ser tratado como extensão do que você construiu, porque de certa forma é exatamente isso que ele é.


Tiradentes muda quando cada uma de nós decide que já chegou a sua vez de começar. Não depois. Agora.


Na sua calçada. Na minha também.


Inspira Tiradentes é o canal da Asset dedicado a transformar conhecimento em ação para os negócios e o destino que compartilhamos.

Veja também