Associação Comercial de Tiradentes e Região Área do Associado

Por que Tiradentes existe?

A cidade que você vê hoje não foi planejada. Foi escolhida. E essa escolha precisa ser renovada por cada um de nós, todos os dias.

Existe uma pergunta que a maioria dos negócios nunca fez sobre si mesmo. Não por descuido, mas porque quando o movimento estava chegando, quando as pousadas enchiam nos feriados e os restaurantes tinham fila na porta, a pergunta parecia desnecessária. Para que perguntar por que você existe quando a evidência de que existe está na sua frente todos os fins de semana?


Mas quando o movimento diminui, quando o feriado que antes enchia a cidade deixa mesas vazias, a pergunta volta. E ela volta mais difícil, porque agora exige uma resposta honesta.


Por que o seu negócio existe?


Em 2009, Simon Sinek, especialista em liderança e autor do livro “Comece pelo Porquê”, apresentou no TED Talks um conceito que se tornaria uma das palestras mais assistidas da história da plataforma, com mais de 57 milhões de visualizações. O conceito é simples e perturbador ao mesmo tempo: praticamente toda empresa sabe o que faz, algumas sabem como fazem, mas pouquíssimas sabem por que fazem. E é essa camada mais profunda, o propósito, a crença central que move o negócio, que determina a qualidade da conexão que ele estabelece com as pessoas ao redor.


A frase que resume o conceito é direta: as pessoas não compram o que você faz. Elas compram o porquê você faz.


Transposta para o contexto de Tiradentes, essa frase tem uma dimensão que vai muito além de qualquer negócio individual. Porque antes de perguntar qual é o porquê do seu restaurante, da sua pousada, da sua loja, é preciso responder uma pergunta anterior, e mais fundamental: qual é o porquê de Tiradentes?


A resposta não está em nenhum folder turístico. Está na história real da cidade.


Tiradentes não foi planejada como destino turístico. Foi preservada por acidente. Com o fim do ciclo do ouro no século XVIII, a cidade entrou em décadas de estagnação econômica. A pobreza que impediu o crescimento foi, paradoxalmente, o que impediu a demolição. Enquanto outras cidades brasileiras modernizavam seus centros históricos, Tiradentes ficou parada no tempo sem querer. O conjunto arquitetônico que hoje atrai visitantes do mundo inteiro sobreviveu porque não havia dinheiro para destruí-lo.


O tombamento pelo IPHAN em 1938 reconheceu o valor do que existia. Mas foi uma escolha humana, feita décadas depois, que transformou esse patrimônio em destino. A partir dos anos 1960 e 1970, empresários, intelectuais e moradores decidiram que aquele acervo esquecido tinha valor. Decidiram investir onde outros viam abandono. Decidiram receber bem quem chegava. E foram construindo, empresa a empresa, pousada a pousada, restaurante a restaurante, o destino que Tiradentes é hoje.


Esse é o porquê de Tiradentes. Não é a arquitetura barroca, embora ela seja extraordinária. Não é a gastronomia, embora ela seja reconhecida internacionalmente. O porquê de Tiradentes é uma escolha coletiva, repetida todos os dias, de cuidar do que é nosso e receber bem quem vem até aqui. Uma escolha que não foi feita pelo poder público. Foi feita pela iniciativa privada, uma decisão de cada vez, ao longo de décadas.


E essa escolha funcionou. Em 2023, o TripAdvisor elegeu o roteiro “Walking Tour Becos de Tiradentes” como um dos 25 melhores passeios culturais do mundo, único destino brasileiro na lista, ao lado do Louvre, do Coliseu e do Taj Mahal. A cidade recebe cerca de 280 mil turistas por ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Os dois maiores grupos de trabalhadores formais com carteira assinada em Tiradentes são garçons e cozinheiros. O turismo não é uma atividade econômica da cidade. É a única.


Há, porém, algo que essa história de sucesso não revela sozinha. Algo que só fica visível quando paramos de olhar para o que cada um construiu individualmente e passamos a olhar para o que todos compartilham coletivamente.


Todo sistema que só é esvaziado, sem ser reposto, chega a um limite. E quando esse limite é alcançado, a pergunta que ninguém fez enquanto as coisas funcionavam finalmente se impõe: quem estava cuidando de encher?


Para entender onde Tiradentes está hoje, precisamos de uma imagem. Imagine uma enorme caixa d’água.


Cada pessoa que chegou a Tiradentes e decidiu construir algo aqui fez um furo nessa caixa e começou a se abastecer. Alguns construíram negócios extraordinários. Alguns receberam reconhecimento nacional e internacional. Pousadas premiadas, restaurantes citados nos melhores guias do país, artesãos com obras espalhadas pelo mundo. Isso é mérito real, legítimo, que precisa ser celebrado.


Mas a caixa foi baixando.


Não por má vontade. Por desconexão. Porque enquanto cada um cuidava do próprio negócio, o espaço comum foi ficando para trás. A calçada na frente do estabelecimento. A rua que o visitante percorre antes de chegar. A experiência que começa antes de qualquer porta ser aberta. E, mais profundamente, a ausência de uma visão compartilhada sobre o que Tiradentes quer ser, para quem quer ser e como quer ser lembrada.


Uma cidade sem marca única não tem posicionamento. Uma cidade sem posicionamento não tem público-alvo definido. Uma cidade sem público-alvo não tem estratégia. E uma cidade sem estratégia cresce por impulso quando o vento está a favor, e sofre sem saber por quê quando o vento muda.


O vento mudou.


Encher a caixa d’água não é uma metáfora. É um conjunto de ações concretas que precisam acontecer em todas as frentes ao mesmo tempo, cada uma na escala de quem pode agir.


O empresário enche a caixa quando entende que a excelência do seu negócio não é só uma vantagem competitiva pessoal. É uma contribuição para o ativo comum que todos compartilham. Quando percebe que o seu porquê individual só se sustenta se estiver conectado ao porquê coletivo do destino. Que não existe pousada premiada numa cidade deteriorada. Que não existe restaurante reconhecido num destino sem visitantes.


O morador enche a caixa quando cuida da porta de casa, da calçada, da rua. Quando entende que Tiradentes não é o lugar onde ele mora apesar do turismo. É o lugar que existe porque pessoas escolheram, e continuam escolhendo, cuidar do que é delas. Que o cuidado com o espaço comum não é obrigação de quem tem negócio. É responsabilidade de quem tem endereço.


O poder público enche a caixa quando trata o turismo com a seriedade que a única indústria do município merece. Quando entende que uma cidade que não mede o que recebe não consegue defender o que construiu. Que decisão sem dado não é gestão. É intuição. E intuição não é suficiente quando o que está em jogo é a economia de oito mil pessoas.


Os vereadores enchem a caixa quando percebem que existe uma visão organizada sobre o futuro de Tiradentes. Que essa visão não pertence a nenhum grupo político. Pertence ao destino. E que legislar a favor do destino é legislar a favor de cada morador que depende dele para viver.


Tiradentes não tem mineração para voltar. Não tem indústria para desenvolver. Não tem outro caminho que não seja este: cuidar do que é nosso com a consciência de quem sabe que é a única saída. Não por obrigação. Por escolha. Pela mesma escolha que pessoas reais fizeram décadas atrás quando decidiram enxergar valor onde outros viam abandono.


Essas pessoas encheram a caixa. O que temos hoje é o resultado do que elas construíram.


A pergunta que fica, para cada um de nós, não é filosófica. É prática.


O que você está fazendo para encher a caixa?


Inspira Tiradentes é o canal dedicado a transformar conhecimento em ação para os negócios e o destino que compartilhamos.


Referência: Simon Sinek — Comece pelo Porquê (Sextante, 2018)

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