300 anos da Rua Direita

As histórias e encantos da principal rua de Tiradentes

“Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar”, cantava Mário Lago em uma das cantigas infantis mais populares do Brasil. Na verdade as ruas que formam Tiradentes já são compostas por pedras e, a mais bonita delas, tinha desde seus primórdios, uma brilhante magia.

A Rua Direita nasce antes mesmo de Tiradentes ser reconhecida como cidade. Durante o século XVIII a então Vila de São José tinha como coluna vertebral a rua mais viva do povoado.  Diversas famílias ocupavam as casas que se entrelaçavam uma nas outras, residências tais que se misturavam com o comércio rico e diverso da cidade. Cada portinha levava ao mundo diferente: o primeiro cômodo geralmente era destinado ao comércio local, voltado ao morador. Já os outros abrigavam famílias enormes que ajudaram a construir a história do lugar.

O professor Luiz Cruz é um dos descendentes da Rua Direita, sua família já está há mais de 60 anos morando no mesmo lugar. Luiz nasceu na casa de número 111 na década de 60. Nessa época, a Rua Direita fazia parte de uma Tiradentes isolada do mundo, mas viva por dentro. Enquanto hoje a Rua Direita é cenário de novelas de televisão, na metade  do século XX era a cena principal das fantasias das crianças tiradentinas. “Era o meu mundo, meu universo. E não só por ter relação com os meus amigos, minha família, mas era o meu universo de fantasia. A rua era muito mágica na minha época, nós conhecíamos todas as famílias, todas as casas, todas as plantas, todos os animais de estimação”, relembra Luiz ao olhar saudoso para o lugar do qual cresceu.

A magia da simplicidade de uma rua tranquila, povoada por pessoas que celebravam entre si uma vida saudosa e festiva, ainda guarda marcas nas memórias daqueles que nasceram e cresceram no lugar. “A rua direita era viva, era intensa, tinha muitas crianças. Tinha um  conjunto de moradores que se articulavam, participavam ativamente de tudo. Brincávamos tanto que ela era quase uma extensão dos nossos quintais”, comenta Luiz. Rogério de Almeida, diretor do Museu da Liturgia, apesar de não ter nascido efetivamente na Rua Direita, passou muito dos seus tempos de menino correndo e brincando nos arredores. Ele  relata sobre um tempo que sente saudade, uma época em que não havia muros que separavam as casas; não existiam restrições: toda casa e terreno era uma continuação das brincadeiras das crianças.

 Meninos e meninas da Rua Direita, década de 1960.Acervo Luiz Cruz
 Rua Direita, década de 1950. Acervo EAU - UFMG.

Historicamente, toda cidade setecentista colonizada por Portugal tem uma Rua Direita. Mas com o passar do tempo e com o crescimento dos municípios, esses nomes foram trocados. A Rua Direita de Tiradentes, por exemplo, já se chamou XV de Novembro. Contudo, em um processo de resgate da cultura histórica, no fim do século XX, ela retorna com seu nome original, mantendo suas tradições.

Era uma rua feita pela povo e para o povo. As festas religiosas tradicionais passavam obrigatoriamente pela Rua Direita e todas as famílias participavam fervorosamente. Colocavam velas e flores nas janelas e desciam a rua nas procissões, enquanto as crianças brincavam pulando no calçamento, escolhendo sua pedra preferida. “Eu tinha minha pedra, sabe? E fiquei muito triste quando trocou o calçamento daqui e minha pedra nunca mais voltou. Aqui nós brincávamos de fazenda, fazíamos desenhos nas pedras… Era uma época que não volta mais”, relembra Luiz.

Tiradentes tinha como espinha dorsal da cultura, das tradições e do comércio a Rua Direita. Mas hoje, seus traços só estão presentes na arquitetura. O açougue no começo da rua já não existe mais; o antigo Bar da Saudade abriga hoje uma loja; o terreno das festas juninas e das brincadeiras infantis hoje pertence ao Centro Cultural SESIMINAS Yves Alves. Há poucas famílias que ainda moram na Rua Direita, dificultando a preservação das tradições. “Era rua do convívio social, da solidariedade dos vizinhos, da confraternização entre os vizinhos.  E essa Rua Direita da minha lembrança não existe mais. Essas famílias que se mantém aqui que se tornam cada vez mais importantes para perpetuar as tradições da cidade”, comenta o professor.

Por volta da década de 40, a Rua Direita foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Esse processo, feito pela Sociedade Amigos Tiradentes (SAT), de revitalização do núcleo antigo do Centro Histórico fez com que a especulação imobiliária crescesse. As famílias mais antigas, portanto, a partir da década de 80, foram deixando seus lugares de origens e comprando outras casas nos bairros mais afastados. A Rua Direita começa a deixar de ser uma rua do povo e se torna uma rua quase completamente do comércio turístico.

“Buscar e estudar a memória deste lugar é preservar não só a memória coletiva, como minha história individual, porque são minhas raízes”, explica Rogério Almeida ao falar sobre a importância de reviver a cultura local. Uma rua sem povo é uma rua sem história, assim como comenta Luiz   “A Rua Direita vai perdendo a magia do encantamento dos meninos porque ela vai perdendo a sua alma a medida em que perde seus habitantes”.

Histórias, raízes, lembranças. A Rua Direita abriga 300 anos de acontecimentos, de transformações e continua imponente e rica, envolta  pela Serra de São José e abençoada pela Nossa Senhora do Rosário.

Texto: Beatriz Estima

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